Corações na Estante

03/12/2009 - Leave a Response

Ele tinha mania de colecionar mulheres.
Além de mulheres colecionava seus respectivos corações.
As conhecia, seduzia, fazia mulher. Essas loucas de amor se jogavam aos seus pés, faziam loucuras, e entregavam seus corações.
Ele observava, fazia charme, admirava, algumas vezes quase se apaixonava, aplaudia e sumia.
Sumia sempre levando consigo as lembranças, os presentes e o coração.
O mesmo acontecia com Ela. Seduzia, encantava, colocava-os a seus pés; porém diferente d’Ele não sumia, se fazia de vítima, arrumava motivos, brigava e os fazia sentir-se culpados.
Assim ia embora, por motivos, na verdade inexistentes, mas tão fortes que se perdiam na realidade.
Ele e Ela se encontraram um da por acaso; em agum lugar no tempo e no espaço.
Se esbarraram, se olharam, saíram.
Cada um conquistou mais um coração, que foram para suas respectivas estantes.
Se encontraram novamente, olharam-se nos olhos e pensaram “mais um”. Se aproximaram, usaram todas as armas, ambos se apaixonaram. porém apenas um se entregou e desejou viver um amor.
O outro mais orgulhoso – e no fundo medroso -, arrumou desculpas e sumiu, levando o dele, e – sem que o outro soubesse – deixando o seu.

escrito por Teph Bergmann
será dirigido por Teph Bergmann

Uma Paisagem de São Paulo

16/11/2009 - Leave a Response

antes da chuva, o mendigo
já estava morto

(uma flor suja – pétalas
despencando da camiseta – sua

única coroa)
antes da morte

o viaduto já abarrotava
antes da enchente

a boca já estava cheia
de sangue, de formigas,

de granizo

escrito por Fabiano Calixto
será dirigido por Fernando Frias

 

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Fim da Arte

O meu palco é a rua
Pereço lentamente, hoje
Cortinas se fecham
Último dia
Uma quarta parede plana e sem profundidade

sentidos no automático

16/11/2009 - Leave a Response

sentidos no automático
ao percorres este caminho
fiquei cega
da boca
do coração
da mente

escrito por Kati Pereira

Somente somos e basta

16/11/2009 - Leave a Response

Passeando no vago destino incerto
No silêncio da esquina tumultuada
Multidões, multidões, multidões…
No vazio profundo
Silêncio, Silêncio, Silêncio…
Não me basta apenas falar
Quero ouvir o silêncio
O toc toc dos sapatos apressados
Não quero saber da evolução da espécie
Da extinção dos animais
Da teoria do caos
De apenas concepções e filosofias
Não quero saber de mais nada
Que não seja o nada
Simplesmente porque nunca teremos respostas.
Portanto abonarei as perguntas
Para justamente não querer saber
De respostas especulativas
De pessoas que se dizem intelectuais
Porque eu, simplesmente, assim como você
Sou um animal
A diferença dos irracionais
É que somos educados à esconder nossas fraquezas
E aniquilar nossos instintos primitivos.
Transformar a vida num cotidiano exemplar, de fazer dinheiro
Modular os sonhos como algo promissor
Parecido com o funcionário do mês
Fazer com que o simples desejo
Seja apenas um momento ínfimo de loucura
E que o instinto seja hábito de um ser réprobo.
E que eu e você, sejamos grandes amigos
De um site de relacionamento qualquer.
E cada vez mais nos tornarmos estranhos
Pois somente a boa aparencia é o suficiente.
Por isso, não preciso saber de nada, já somos condicionados
À sermos o que somos e basta!
Algo que não ultrapasse meu limiar de consciência.
Coisa que não aparente nítido e nem induzido.
Que, por fim, irá postergar meu estado de espírito puro
Para o objetivo enlouquecedor da felicidade eterna
E a liberdade subjetivada, numa febre alucinativa dos momentos de paz!

escrito por Aline Gaia
será dirigido por Fernando Jorge

Veio gente

06/11/2009 - Leave a Response

Veio gente pra rir
gente pra chorar
o amigo, o inimigo
o parente
Veio o irmão, o amigo
a prima atrasada do interior
a Dona Maria que nunca sai de casa

Veio gente…

É o circo armado!

Veio gente sem dó!
gente sem piedade!
o namorado
a namorada
gente que “não veio”
gente só pra ver
gente só pra crer

Mas, veio
Até 10h30
Veio gente

Desconhecidos, anônimos e flores
Flores tão aparecidas!
Veio gente pra ver!
Veio o funcionário
O frio, a noite sem sono
O vereador
Os amigos da prefeitura
O parente mal educado
O ex namorado
A amante
Os inimigos

Veio o choro, o arrependimento,
O acerto de contas
O ódio, o acerto de contas
Vieram as contas, os cheques
O inventário, a pensão

Vieram as fotos, a saudade
A lembrança
E esse caixão dentro do chão

Veio o meu aniversário, os 40 anos,
O aperto no peito
E essa confusão
Veio a lembrança dos 10 anos de idade
As brincadeiras
A foto dos meus 02 meses
Me vi no seu colo, então
Veio vindo no tempo
Essa coisa sentida
E todas as cascas de laranjas
Que jogamos naquele fio

Veio a praia, o Guarujá,
A brasília amarela
E eu que não queria
Aprender a dirigir
E aprendi, emburrada e chorando
Me vi indo pra faculdade
Você me buscando
E eu sem saber se queria me formar
Me vi mudando do apartamento
Aquele lá em Santo André
Que eu não queria mudar
Você guardando minhas coisas
Mudo
Por pura consideração
E o olho no meu olho:
- se preocupa não, fia, cê tem casa pra ficar!

Veio essa saudade fudida
Essa orfandade
Esse vazio
E um medo de continuar

Veio a certeza
Que eu não vou te ver
Que eu não sei o que fazer
A não ser chorar
E lembrar
Veio esse desalento
Que nem vontade de correr dá
E eu não consigo entender
Porque o tempo, a vida ou
Seja lá o que isso for
Faz isso com uns cabras
Igual a você

Veio toda essa espiritualidade
Que eu acho de merda
E que não consegue calar
Ou fechar
O rombo que nasceu aqui

Veio na minha mente
Suas roupas, sua bebida
Sua “fazenda”
E o que você ia fazer se ganhasse na loteria
Veio seu celular
Que você gostava tanto
E que sempre tinha crédito
Seus carros
(E o carro zero que você nunca teve)

Veio de novo a saudade
E veio de novo
E eu queria xingar
Veio essa licença
Que eles chamam de “nojo”
Deve ser porque a gente fica o tempo todo
Com vontade de vomitar

Vieram os parentes,
Comeram tudo, mal educados,
Sem consideração
Veio tanta gente
Com tanta intenção

Veio a Lenita oferecer o jazigo
Na manhã que o médico
Ligou do hospital
E a gente tremia porque
Sabia que você tinha morrido
Daí a gente foi pro hospital
Esquecemos sua roupa, seu documento
Voltamos em casa para pegar
Eu, Edinho e Noé
Perdidos…Achados…
Compramos uma camisa, uma gravata
E meias lá no shopping
A gente podia atrasar um pouco
Achávamos que você ia ficar mais um pouco com a gente
(e ficou)

Daí, armamos o circo
O velório
E preparamos a carniça
Pra alguns urubus
E não tinha mais jeito
E ninguém ia mais deixar a gente em paz
Por dois dias
Que as pessoas chamam de luto

Daí, veio o documento
Tudo
E se eu tivesse dinheiro
Você tava até hoje
No hospital
Lá nos aparelhos
De repente, dava certo…
Mas, não deu…
Acabou
Ou começou…
Veio gente,
E como veio gente!

escrito por Ana Cristina da Silva
será dirigido por Ana Cristina da Silva

Próxima Parada

29/10/2009 - Leave a Response

Parta agora!
Um dilúvio de estranhas incertezas
Um novo velho continente!

São estradas sem fim
Um buraco sem fundo
Um caminho sem rumo

Os olhos sob monumentos
A lembrança de onde esteve
Tremem-lhe as pernas
Embrulham o estômago

É tudo um novo começo
A reconstrução dos átomos
Desvairados e suspensos no tempo

A sua essência,
E sua dependência
Onde quer que esteja
São nada além de ti.

escrito por Katia Quartarollo
será dirigido por Ana Divino

No País das Maravilhas ou Através do Espelho ou A Teia

26/10/2009 - Leave a Response

Era um corredor, quase um labirinto. Havia várias portas. Era úmido e escorregadio. A luz era difusa.

A Saída estava à frente, sempre com a porta aberta (onde podíamos ver o lado de lá.)

Há tempos que tentava atravessar a porta, mas na saída tinha uma Teia.

A Teia era bonita e brilhante, admito. Durante todo o tempo em que estava presa ela me dava dicas sobre como sair. Costumava dizer que não me queria mais ali, e que a força para sair estava dentro de mim. Eu sempre acreditei, mas tinha medo.

Certo dia, tive coragem para tentar escapar. Suspirei fundo, mentalizei a força e fui. Quando coloquei o primeiro pé para fora a Teia me agarrou. No primeiro instante levei um susto! Depois senti que estar agarrada a Teia era aconchegante, então eu desistia de tentar sair. Quando ela percebia que eu queria ficar, se cansava. O aconchego virava pesadelo. E novamente estava ali: dentro do corredor.

Tentei investigar a Teia, invadi as portas do seu corredor. A privacidade dela era bela e suja. Percebi entrando em algumas portas que tinham retratos de outras pessoas que conseguiram sair, mas que de alguma forma sua essência permanecia lá. E também tinha a moça que traiu Sansão na porta de entrada, aos poucos começando a percorrer o corredor.

Eu passei muito tempo escorregando lá dentro e suspirando e tendo coragem, estava tão cansada. Tentava sair dali, mas quando o pé estava na porta de saída vinha a Teia e grudava na minha pele. Era gostoso estar colada nela. E quando a Teia percebia que eu gostava, ela cansava. E lá estava eu novamente: dentro do corredor.

O tempo passou e eu tinha a consciência de que não deveria estar ali, pensava na saída enquanto a moça que traiu Sansão ia se aproximando. Então me desesperei. Escorregava, caía e me machucava. Pedi ajuda a Teia porque me abastecia de qualquer sentimento que ela pudesse ter por mim: compaixão, raiva, tesão, carinho, ciúmes ou simplesmente pena.

A moça que traiu Sansão estava cada vez mais perto, eu sentia e tive um estupor. Algo agonizante apesar da lucidez de saber que existia uma porta de saída.

A Teia com sua pretensão, tentava me ajudar e fez com que eu tivesse a percepção de que ela me mantinha presa NÃO por: compaixão, raiva, tesão, carinho, ciúmes ou simplesmente pena. Ela precisava ter a segurança de que alguém estaria ali, nutrindo sentimentos por ela. Ego. Ela se satisfazia e dependia de alguém para não se sentir sozinha. Eu compreendi, desmitifiquei a Teia, passei a enxergá-la como algo frágil e fraco. Mas não tive pena.

Abri todas as portas do seu corredor e em uma delas, bem no cantinho, encontrei um vidrinho escrito: BEBA-ME. Eu bebi. Então eu cresci de tamanho. Estava forte. Comecei a suar algo dourado e brilhante. Escutei a marcha imperial.

Nesse momento o que era apenas consciência, passou a ser sentimento. Pensava, sentia e tinha coragem de sair. Fui andando calmamente até a porta de saída. Coloquei o pé na porta. A Teia caiu em cima de mim. O suor dourado e brilhante da minha pele fez com que ela escorregasse e fui me limpando e coloquei-a novamente no corredor.

Estava extasiada. Assim que coloquei o outro pé para fora, pensei se eu teria uma porta com meu retrato naquele corredor. Suspirei um: TALVEZ.

No lado de fora encontrei um espelho. Eu me vi. Fiquei por instantes apenas entendendo. Olhei para o outro lado e vi outro espelho. Enxerguei de verdade e meus olhos se encheram de lágrimas.

E então…

ESTOU ATRAVESSANDO O ESPELHO… (continua)

Para Lewis Carroll


escrito por Luma Reis

será dirigido por Luma Reis

Porque nós sussurramos no silêncio

22/10/2009 - One Response

O fio do passado escorre pela escada,
invade o quarto e rodopia com o vento…
Sai, trôpego, pela janela…
Foge!

Agora estamos sozinhas
Não temos mais com o que nos preocupar
Estamos no escuro
E murmuramos no silêncio

Cada uma contando o saldo
do vivido
Esperando a alegria do porvir
Delirando com as incertezas e inconstâncias

O moço vai casar
A moça está de viagem marcada para a Europa

Rastros de quem fomos
Laços que nos prendem debilmente
ao que já foi
Quem fomos já não importa mais
Nem sabemos!

E quem seremos é um apanhado de sonhos
Mas sonhamos juntas
Nessa prece da noite escura

Nossos corpos estão unidos
As mãos seladas
As histórias exorcizadas

Estamos livres e corremos
em alta velocidade
Transformando o sussurro, a prece
num grito de êxtase

escrito por Ana Divino
será dirigido por Katia Quartarollo

Nadar solo

21/10/2009 - Leave a Response

Era o fim.Ou ainda faltava alguns segundos.Enquanto eu fingia entre goles e risadas calculadas, havia planejado o fim.Ou o começo.Ou ainda o começo do fim?
Era preciso abandoná-lo.Confesso que tivemos momentos felizes ou de muita vida.Daqueles momentos doces que valiam minha velha memória. Mas não adiantava, não adiantava.Era preciso deixar para trás.Por instantes quis guardar numa caixinha como se pudesse. Cabia?
Havia os momentos agonizantes, momentos em que eu me perdia entre lágrimas e desejo exasperado.Entre todas as aflições de ser, havia Ulisses.
Mas não era ele a quem devia abandonar.Era as velhas lembranças da velha memória.Era o que foi, de fato.Eu precisava daquela purificação.Daquele mar gelado,porque apenas a garoa, não adiantava, não adiantava.
E eu pude sentir. O gosto amargo do mar, a vontade de deixar para trás, o frio das ondas pelo corpo, o tempo passando rápido, pude sentir os segundos que precede a mudança. A mudança de dia, de noite , de hora, de minuto, de segundo, de ano. E olhando para o infinito do mar engoli um suspiro a seco. A liberdade era Azul.
5
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escrito por Luma Reis

dirigido por Luma Reis e Edson Costa

E eu mãe

21/10/2009 - Leave a Response

Com a paciência de quem espera por guisados
presa e encharcada.
Ofereço esse colo generoso
de quem espera esquecer do egoísmo e solidão.
Na minha alma somente o pavio
É que sobram em mim medos e véus
Reconheço. Ela herdou tua boca.
Casa dividida e estupefata
Coisas espalhadas pelo chão
junto a restos de eu antiga…
E eu preenchida com rua, pernilongos e choros
a apertar o tempo nas mãos.

Eu, com a minha sensibilidade árdua e daninha,
Sentada, companhia à espera.
Da onde vieram esses olhos claros e insatisfeitos?
Sabe, há certa delicadeza no pudor de quem não segue adiante…
Mas não pude com o tocar gentil da quietude
minhas vergonhas sempre foram mais severas.
A infância a me consumir o peito,
borboletas empoeiradas, como quando as esquecemos.
quero o ontem e o que pareciam ser as alegrias
porque era a embriagues e a madrugada. Todos infantis e maduros
Risos, denúncias, e suas docilidades expostas.
Queria esse coração, faminto e desajeitado, sem apelos

E no começo a ousadia,
Era o tempo de fugir para o mundo, lembra?
Nós dois deitamos na escuridão
As estrelas a escolher no terço nossa penitência
A realidade sólida e verdadeira
Era os pés descalços e os guisados
Era o coração faminto, pronto para o vôo
Olhávamos um ao outro no espelho descoberto.
Nossas dores levadas pela brisa.
Respiros trêmulos de folhas novas
Tudo profundo e maduro, feito para o parto.
Era a tenra idade de nossa loucura,
Sem cantos ou perplexidade
Éramos nós errantes e limpos amando

Sabe, somos de uma intimidade alheia.
Contento-me com restos de leituras
E você, com suas pseudo claridades
Passo os dias a guardar cascas de ovos
E você, a descascar batatas
Não prevíamos essa tal convivência
da preocupação com os caminhos engatinhados,
da periculosidade de viver em casa…

Lado a lado, nosso pequeno cativeiro horizontal.
Esticados e intocados,
balbúcios e irrealidades acolhedoras.
Noites de pernilongos, lírios murchos e pensamentos embaraçados
Nosso caminhozinho de ferro
é um mosaico desarticulado meu bem
Nessa travessia que não cabe certezas…
…é tudo uma questão de sonho

Minha realidade provisória
entre paredes e abstinências
que conto? De novo, tudo velho.
Uma música a atravessar rápida a janela
Quem sabe o que fica é aquilo que passa:
O algodão a limpar o umbigo
Uma aflição ou um presságio
A camiseta solta na poltrona
As risadas na banheira
Pernilongos a irritar as orelhas
O gosto de areia na boca
Anotações em oferenda
E a filha ensolarando…

No peito, caixinha de música
Cabeça nas nuvens, moinho de vento
Olhos de renda, inquietos e sinceros,
sem pedras ou sobressaltos
Os pensamentos a deslizar distraídos.
O corpo a se manter entrelaçado ao meu nas delongas
Você que sabe arrebatar abraços
Sabe também que o agora é suave e claro
É que estamos no tempo de engatinhar

Estou na espera da brisa paciente, meu bem.
De nós, áspero distanciamento, sentimento sonolento
Somos restos de palavras amarelas e guardadas
Farejo seu coração inchado pela falta de chuva dos olhos
A prosseguir em seus sonhos de beco
Sabe, no silêncio havia as promessas
Agora, nessa falta, confundimos as procuras e as respostas
Porque nos cobrimos empoeiradamente com a quietude?
Nesse chão partido e repartido, anseio pelo sal e pelo gosto
Pelas mãos em oferenda e pelos nossos olhos
maduros, doces e malcriados

Casa passageira sob nossos pés.
Nesse dia carente e preguiçoso
sou a boca calada e o coração cheio e descalço
Não somos mais do que crianças num parto-desencanto.
Seu olhar vaza incertezas
misturado aquele dom só seu em manter silêncios
alguns recortes de palavras pálidas
Estamos sós, sem motivos nem consolos
sem trégua nem asas

lembranças de chão
rotina que entorpece
sem passagem pra o sonho
Sentimentos que atravessam
sem parada para afagos
choques que desabam e murcham
Nesse tempo de palavras tontas e úmidas
somos apenas a obstinação

estou vestida e esquiva a espera do amor.
Como se para o amor precisasse de defesa.
Como doença que tem que prevenir.
Como quando criança e tentamos ficar doentes para não ir a escola.
Como quando aceitamos os pés descalços.
Tudo uma questão de desejo e fuga, de pressa e espera.
Se vamos nos defender do amor,
porque essa vontade insistente
em nos cobrirmos até as orelhas com ele?

Procuro em sua boca intransigente a palavra reencontrada
Não quero essa mentalidade etiquetada
e suas intenções coloridas de dona de casa perfeita
embora eu já tenha me fechado em sussurros
tem algo que precisa saber:
não sou plana

e me perco em pára-raios

escrito por Maria Paula Magalhães

será dirigido por Ana Divino