Se ela fosse uma estrela
Faria o possível para tocar
Mas, no entanto, só tenho à observar;
Se ela fosse um semáforo
Não esperaria o sinal verde para avançar
Mas está tudo vermelho, não consigo alcançar;
Se ela fosse um chocolate
Não perderia tempo tirando a embalagem para degustar
Só que está na vitrine da padaria e não tenho como pagar para tê-la;
Se ela fosse uma música
Daria logo um jeito para ouvir
Sem ao menos ser lançada, ia baixar
Mas o problema é que não sei nem a letra
E começo a entender que ela está tão longe…
Eu sei, está longe até mesmo do fim
Está longe da guerra
Longe de você
Longe de mim.
Ela me disse num sonho alucinógeno
Me disse que não me entende
E eu perguntei: Por quê?
E não soube me responder
Caminhos profundos
Ser no obscuro
Medo do mundo
De você e de tudo
Que lhe cause medo
De ser, de sentir
De se fazer existir
Que seja por um segundo.
Ah Paz!
Covarde
Por quê você não vem
E enfrentar esses homens sujos
Os fazedores da guerra
Do mundo sem escrúpulos
Eu militaria com você
Se fosse tão corajosa
Quanto a minha vontade de lhe sentir.
Além de mulheres colecionava seus respectivos corações.
As conhecia, seduzia, fazia mulher. Essas loucas de amor se jogavam aos seus pés, faziam loucuras, e entregavam seus corações.
Ele observava, fazia charme, admirava, algumas vezes quase se apaixonava, aplaudia e sumia.
Sumia sempre levando consigo as lembranças, os presentes e o coração.
O mesmo acontecia com Ela. Seduzia, encantava, colocava-os a seus pés; porém diferente d’Ele não sumia, se fazia de vítima, arrumava motivos, brigava e os fazia sentir-se culpados.
Assim ia embora, por motivos, na verdade inexistentes, mas tão fortes que se perdiam na realidade.
Ele e Ela se encontraram um da por acaso; em agum lugar no tempo e no espaço.
Se esbarraram, se olharam, saíram.
Cada um conquistou mais um coração, que foram para suas respectivas estantes.
Se encontraram novamente, olharam-se nos olhos e pensaram “mais um”. Se aproximaram, usaram todas as armas, ambos se apaixonaram. porém apenas um se entregou e desejou viver um amor.
O outro mais orgulhoso – e no fundo medroso -, arrumou desculpas e sumiu, levando o dele, e – sem que o outro soubesse – deixando o seu.
Veio gente pra rir
gente pra chorar
o amigo, o inimigo
o parente
Veio o irmão, o amigo
a prima atrasada do interior
a Dona Maria que nunca sai de casa
Veio gente…
É o circo armado!
Veio gente sem dó!
gente sem piedade!
o namorado
a namorada
gente que “não veio”
gente só pra ver
gente só pra crer
Mas, veio
Até 10h30
Veio gente
Desconhecidos, anônimos e flores
Flores tão aparecidas!
Veio gente pra ver!
Veio o funcionário
O frio, a noite sem sono
O vereador
Os amigos da prefeitura
O parente mal educado
O ex namorado
A amante
Os inimigos
Veio o choro, o arrependimento,
O acerto de contas
O ódio, o acerto de contas
Vieram as contas, os cheques
O inventário, a pensão
Vieram as fotos, a saudade
A lembrança
E esse caixão dentro do chão
Veio o meu aniversário, os 40 anos,
O aperto no peito
E essa confusão
Veio a lembrança dos 10 anos de idade
As brincadeiras
A foto dos meus 02 meses
Me vi no seu colo, então
Veio vindo no tempo
Essa coisa sentida
E todas as cascas de laranjas
Que jogamos naquele fio
Veio a praia, o Guarujá,
A brasília amarela
E eu que não queria
Aprender a dirigir
E aprendi, emburrada e chorando
Me vi indo pra faculdade
Você me buscando
E eu sem saber se queria me formar
Me vi mudando do apartamento
Aquele lá em Santo André
Que eu não queria mudar
Você guardando minhas coisas
Mudo
Por pura consideração
E o olho no meu olho:
- se preocupa não, fia, cê tem casa pra ficar!
Veio essa saudade fudida
Essa orfandade
Esse vazio
E um medo de continuar
Veio a certeza
Que eu não vou te ver
Que eu não sei o que fazer
A não ser chorar
E lembrar
Veio esse desalento
Que nem vontade de correr dá
E eu não consigo entender
Porque o tempo, a vida ou
Seja lá o que isso for
Faz isso com uns cabras
Igual a você
Veio toda essa espiritualidade
Que eu acho de merda
E que não consegue calar
Ou fechar
O rombo que nasceu aqui
Veio na minha mente
Suas roupas, sua bebida
Sua “fazenda”
E o que você ia fazer se ganhasse na loteria
Veio seu celular
Que você gostava tanto
E que sempre tinha crédito
Seus carros
(E o carro zero que você nunca teve)
Veio de novo a saudade
E veio de novo
E eu queria xingar
Veio essa licença
Que eles chamam de “nojo”
Deve ser porque a gente fica o tempo todo
Com vontade de vomitar
Vieram os parentes,
Comeram tudo, mal educados,
Sem consideração
Veio tanta gente
Com tanta intenção
Veio a Lenita oferecer o jazigo
Na manhã que o médico
Ligou do hospital
E a gente tremia porque
Sabia que você tinha morrido
Daí a gente foi pro hospital
Esquecemos sua roupa, seu documento
Voltamos em casa para pegar
Eu, Edinho e Noé
Perdidos…Achados…
Compramos uma camisa, uma gravata
E meias lá no shopping
A gente podia atrasar um pouco
Achávamos que você ia ficar mais um pouco com a gente
(e ficou)
Daí, armamos o circo
O velório
E preparamos a carniça
Pra alguns urubus
E não tinha mais jeito
E ninguém ia mais deixar a gente em paz
Por dois dias
Que as pessoas chamam de luto
Daí, veio o documento
Tudo
E se eu tivesse dinheiro
Você tava até hoje
No hospital
Lá nos aparelhos
De repente, dava certo…
Mas, não deu…
Acabou
Ou começou…
Veio gente,
E como veio gente!
Era o fim.Ou ainda faltava alguns segundos.Enquanto eu fingia entre goles e risadas calculadas, havia planejado o fim.Ou o começo.Ou ainda o começo do fim?
Era preciso abandoná-lo.Confesso que tivemos momentos felizes ou de muita vida.Daqueles momentos doces que valiam minha velha memória. Mas não adiantava, não adiantava.Era preciso deixar para trás.Por instantes quis guardar numa caixinha como se pudesse. Cabia?
Havia os momentos agonizantes, momentos em que eu me perdia entre lágrimas e desejo exasperado.Entre todas as aflições de ser, havia Ulisses.
Mas não era ele a quem devia abandonar.Era as velhas lembranças da velha memória.Era o que foi, de fato.Eu precisava daquela purificação.Daquele mar gelado,porque apenas a garoa, não adiantava, não adiantava.
E eu pude sentir. O gosto amargo do mar, a vontade de deixar para trás, o frio das ondas pelo corpo, o tempo passando rápido, pude sentir os segundos que precede a mudança. A mudança de dia, de noite , de hora, de minuto, de segundo, de ano. E olhando para o infinito do mar engoli um suspiro a seco. A liberdade era Azul.
Quais os olhos que me cercam?
Vendo em mim o brilho que não tenho
Quantas verdades me atestam?
Inventadas de onde venho
Eu paro sempre no ponto errado
Assim não agradeço cada passo
Eu beijo sozinho enquanto durmo
Namorando meu tempo escasso
Um dia serei só um invento
De uma mente que não poderei mais controlar
Um dia me tornarei um tormento
Aí sim… Quero ver se irão me cercar.