Com a paciência de quem espera por guisados
presa e encharcada.
Ofereço esse colo generoso
de quem espera esquecer do egoísmo e solidão.
Na minha alma somente o pavio
É que sobram em mim medos e véus
Reconheço. Ela herdou tua boca.
Casa dividida e estupefata
Coisas espalhadas pelo chão
junto a restos de eu antiga…
E eu preenchida com rua, pernilongos e choros
a apertar o tempo nas mãos.
Eu, com a minha sensibilidade árdua e daninha,
Sentada, companhia à espera.
Da onde vieram esses olhos claros e insatisfeitos?
Sabe, há certa delicadeza no pudor de quem não segue adiante…
Mas não pude com o tocar gentil da quietude
minhas vergonhas sempre foram mais severas.
A infância a me consumir o peito,
borboletas empoeiradas, como quando as esquecemos.
quero o ontem e o que pareciam ser as alegrias
porque era a embriagues e a madrugada. Todos infantis e maduros
Risos, denúncias, e suas docilidades expostas.
Queria esse coração, faminto e desajeitado, sem apelos
E no começo a ousadia,
Era o tempo de fugir para o mundo, lembra?
Nós dois deitamos na escuridão
As estrelas a escolher no terço nossa penitência
A realidade sólida e verdadeira
Era os pés descalços e os guisados
Era o coração faminto, pronto para o vôo
Olhávamos um ao outro no espelho descoberto.
Nossas dores levadas pela brisa.
Respiros trêmulos de folhas novas
Tudo profundo e maduro, feito para o parto.
Era a tenra idade de nossa loucura,
Sem cantos ou perplexidade
Éramos nós errantes e limpos amando
Sabe, somos de uma intimidade alheia.
Contento-me com restos de leituras
E você, com suas pseudo claridades
Passo os dias a guardar cascas de ovos
E você, a descascar batatas
Não prevíamos essa tal convivência
da preocupação com os caminhos engatinhados,
da periculosidade de viver em casa…
Lado a lado, nosso pequeno cativeiro horizontal.
Esticados e intocados,
balbúcios e irrealidades acolhedoras.
Noites de pernilongos, lírios murchos e pensamentos embaraçados
Nosso caminhozinho de ferro
é um mosaico desarticulado meu bem
Nessa travessia que não cabe certezas…
…é tudo uma questão de sonho
Minha realidade provisória
entre paredes e abstinências
que conto? De novo, tudo velho.
Uma música a atravessar rápida a janela
Quem sabe o que fica é aquilo que passa:
O algodão a limpar o umbigo
Uma aflição ou um presságio
A camiseta solta na poltrona
As risadas na banheira
Pernilongos a irritar as orelhas
O gosto de areia na boca
Anotações em oferenda
E a filha ensolarando…
No peito, caixinha de música
Cabeça nas nuvens, moinho de vento
Olhos de renda, inquietos e sinceros,
sem pedras ou sobressaltos
Os pensamentos a deslizar distraídos.
O corpo a se manter entrelaçado ao meu nas delongas
Você que sabe arrebatar abraços
Sabe também que o agora é suave e claro
É que estamos no tempo de engatinhar
Estou na espera da brisa paciente, meu bem.
De nós, áspero distanciamento, sentimento sonolento
Somos restos de palavras amarelas e guardadas
Farejo seu coração inchado pela falta de chuva dos olhos
A prosseguir em seus sonhos de beco
Sabe, no silêncio havia as promessas
Agora, nessa falta, confundimos as procuras e as respostas
Porque nos cobrimos empoeiradamente com a quietude?
Nesse chão partido e repartido, anseio pelo sal e pelo gosto
Pelas mãos em oferenda e pelos nossos olhos
maduros, doces e malcriados
Casa passageira sob nossos pés.
Nesse dia carente e preguiçoso
sou a boca calada e o coração cheio e descalço
Não somos mais do que crianças num parto-desencanto.
Seu olhar vaza incertezas
misturado aquele dom só seu em manter silêncios
alguns recortes de palavras pálidas
Estamos sós, sem motivos nem consolos
sem trégua nem asas
lembranças de chão
rotina que entorpece
sem passagem pra o sonho
Sentimentos que atravessam
sem parada para afagos
choques que desabam e murcham
Nesse tempo de palavras tontas e úmidas
somos apenas a obstinação
estou vestida e esquiva a espera do amor.
Como se para o amor precisasse de defesa.
Como doença que tem que prevenir.
Como quando criança e tentamos ficar doentes para não ir a escola.
Como quando aceitamos os pés descalços.
Tudo uma questão de desejo e fuga, de pressa e espera.
Se vamos nos defender do amor,
porque essa vontade insistente
em nos cobrirmos até as orelhas com ele?
Procuro em sua boca intransigente a palavra reencontrada
Não quero essa mentalidade etiquetada
e suas intenções coloridas de dona de casa perfeita
embora eu já tenha me fechado em sussurros
tem algo que precisa saber:
não sou plana
e me perco em pára-raios
escrito por Maria Paula Magalhães
será dirigido por Ana Divino