Somente Somos e Basta

Passeando no vago destino incerto

No silêncio da esquina tumultuada

Multidões, multidões, multidões…

No vazio profundo

Silêncio, Silêncio, Silêncio…

Não me basta apenas falar

Quero ouvir o silêncio

O toc toc dos sapatos apressados

Não quero saber da evolução da espécie

Da extinção dos animais

Da teoria do caos

De apenas concepções e filosofias

Não quero saber de mais nada

Que não seja o nada

Simplesmente porque nunca teremos respostas.

Portanto abonarei as perguntas

Para justamente não querer saber

De respostas especulativas

De pessoas que se dizem intelectuais

Porque eu, simplesmente, assim como você

Sou um animal

A diferença dos irracionais

É que somos educados à esconder nossas fraquezas

E aniquilar nossos instintos primitivos.

Transformar a vida num cotidiano exemplar, de fazer dinheiro

Modular os sonhos como algo promissor

Parecido com o funcionário do mês

Fazer com que o simples desejo

Seja apenas um momento ínfimo de loucura

E que o instinto seja hábito de um ser réprobo.

E que eu e você, sejamos grandes amigos

De um site de relacionamento qualquer.

E cada vez mais nos tornarmos estranhos

Pois somente a boa aparencia é o suficiente.

Por isso, não preciso saber de nada, já somos condicionados

À sermos o que somos e basta!

Algo que não ultrapasse meu limiar de consciência.

Coisa que não aparente nítido e nem induzido.

Que, por fim, irá postergar meu estado de espírito puro

Para o objetivo enlouquecedor da felicidade eterna

E a liberdade subjetivada, numa febre alucinativa dos momentos de paz!

 

Escrito por Aline Gaia

Dirigido por Fernando Jorge

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Próxima Parada

Parta agora!

Um dilúvio de estranhas incertezas

Um novo velho continente!

São estradas sem fim

Um buraco sem fundo

Um caminho sem rumo

Os olhos sob monumentos

A lembrança de onde esteve

Tremem-lhe as pernas

Embrulham o estômago

É tudo um novo começo

A reconstrução dos átomos

Desvairados e suspensos no tempo

A sua essência,

E sua dependência

Onde quer que esteja

São nada além de ti.

 

Escrito por Katia Quartarollo

Dirigido por Ana Divino

Ah…se. Mas é!

Se ela fosse uma estrela
Faria o possível para tocar
Mas, no entanto, só tenho à observar;
Se ela fosse um semáforo
Não esperaria o sinal verde para avançar
Mas está tudo vermelho, não consigo alcançar;
Se ela fosse um chocolate
Não perderia tempo tirando a embalagem para degustar
Só que está na vitrine da padaria e não tenho como pagar para tê-la;
Se ela fosse uma música
Daria logo um jeito para ouvir
Sem ao menos ser lançada, ia baixar
Mas o problema é que não sei nem a letra

E começo a entender que ela está tão longe…
Eu sei, está longe até mesmo do fim
Está longe da guerra
Longe de você
Longe de mim.

Ela me disse num sonho alucinógeno

Me disse que não me entende
E eu perguntei: Por quê?
E não soube me responder
Caminhos profundos
Ser no obscuro
Medo do mundo
De você e de tudo
Que lhe cause medo
De ser, de sentir
De se fazer existir
Que seja por um segundo.

Ah Paz!
Covarde
Por quê você não vem
E enfrentar esses homens sujos
Os fazedores da guerra
Do mundo sem escrúpulos
Eu militaria com você
Se fosse tão corajosa
Quanto a minha vontade de lhe sentir.

 

Escrito por Aline Gaia

Dirigido por Kati Pereira

Santa

E num instante só todas as

luzes cruzam minha íris

Não há foco

Não há escuridão

Só um desejo ardente

Que consome os navegantes

Junto as mãos numa prece

Peço a santidade toda

que me proteja

Mas a chuva torrencial

me acerta em cheio

O temporal é um sinal evidente

Não passamos ilesos

na frenética correnteza

desse rio chamado Augusta

 

Escrito e dirigido por Ana Divino

Corações na Estante

Ele tinha mania de colecionar mulheres.

Além de mulheres colecionava seus respectivos corações.

As conhecia, seduzia, fazia mulher. Essas loucas de amor se jogavam aos seus pés, faziam loucuras, e entregavam seus corações.

Ele observava, fazia charme, admirava, algumas vezes quase se apaixonava, aplaudia e sumia.

Sumia sempre levando consigo as lembranças, os presentes e o coração.

O mesmo acontecia com Ela. Seduzia, encantava, colocava-os a seus pés; porém diferente d’Ele não sumia, se fazia de vítima, arrumava motivos, brigava e os fazia sentir-se culpados.

Assim ia embora, por motivos, na verdade inexistentes, mas tão fortes que se perdiam na realidade.

Ele e Ela se encontraram um da por acaso; em agum lugar no tempo e no espaço.
Se esbarraram, se olharam, saíram.

Cada um conquistou mais um coração, que foram para suas respectivas estantes.
Se encontraram novamente, olharam-se nos olhos e pensaram “mais um”. Se aproximaram, usaram todas as armas, ambos se apaixonaram. porém apenas um se entregou e desejou viver um amor.

O outro mais orgulhoso – e no fundo medroso -, arrumou desculpas e sumiu, levando o dele, e – sem que o outro soubesse – deixando o seu.

 

Escrito e dirigido por Teph Bergmann

Veio gente

Veio gente pra rir
gente pra chorar
o amigo, o inimigo
o parente
Veio o irmão, o amigo
a prima atrasada do interior
a Dona Maria que nunca sai de casa

Veio gente…

É o circo armado!

Veio gente sem dó!
gente sem piedade!
o namorado
a namorada
gente que “não veio”
gente só pra ver
gente só pra crer

Mas, veio
Até 10h30
Veio gente

Desconhecidos, anônimos e flores
Flores tão aparecidas!
Veio gente pra ver!
Veio o funcionário
O frio, a noite sem sono
O vereador
Os amigos da prefeitura
O parente mal educado
O ex namorado
A amante
Os inimigos

Veio o choro, o arrependimento,
O acerto de contas
O ódio, o acerto de contas
Vieram as contas, os cheques
O inventário, a pensão

Vieram as fotos, a saudade
A lembrança
E esse caixão dentro do chão

Veio o meu aniversário, os 40 anos,
O aperto no peito
E essa confusão
Veio a lembrança dos 10 anos de idade
As brincadeiras
A foto dos meus 02 meses
Me vi no seu colo, então
Veio vindo no tempo
Essa coisa sentida
E todas as cascas de laranjas
Que jogamos naquele fio

Veio a praia, o Guarujá,
A brasília amarela
E eu que não queria
Aprender a dirigir
E aprendi, emburrada e chorando
Me vi indo pra faculdade
Você me buscando
E eu sem saber se queria me formar
Me vi mudando do apartamento
Aquele lá em Santo André
Que eu não queria mudar
Você guardando minhas coisas
Mudo
Por pura consideração
E o olho no meu olho:
– se preocupa não, fia, cê tem casa pra ficar!

Veio essa saudade fudida
Essa orfandade
Esse vazio
E um medo de continuar

Veio a certeza
Que eu não vou te ver
Que eu não sei o que fazer
A não ser chorar
E lembrar
Veio esse desalento
Que nem vontade de correr dá
E eu não consigo entender
Porque o tempo, a vida ou
Seja lá o que isso for
Faz isso com uns cabras
Igual a você

Veio toda essa espiritualidade
Que eu acho de merda
E que não consegue calar
Ou fechar
O rombo que nasceu aqui

Veio na minha mente
Suas roupas, sua bebida
Sua “fazenda”
E o que você ia fazer se ganhasse na loteria
Veio seu celular
Que você gostava tanto
E que sempre tinha crédito
Seus carros
(E o carro zero que você nunca teve)

Veio de novo a saudade
E veio de novo
E eu queria xingar
Veio essa licença
Que eles chamam de “nojo”
Deve ser porque a gente fica o tempo todo
Com vontade de vomitar

Vieram os parentes,
Comeram tudo, mal educados,
Sem consideração
Veio tanta gente
Com tanta intenção

Veio a Lenita oferecer o jazigo
Na manhã que o médico
Ligou do hospital
E a gente tremia porque
Sabia que você tinha morrido
Daí a gente foi pro hospital
Esquecemos sua roupa, seu documento
Voltamos em casa para pegar
Eu, Edinho e Noé
Perdidos…Achados…
Compramos uma camisa, uma gravata
E meias lá no shopping
A gente podia atrasar um pouco
Achávamos que você ia ficar mais um pouco com a gente
(e ficou)

Daí, armamos o circo
O velório
E preparamos a carniça
Pra alguns urubus
E não tinha mais jeito
E ninguém ia mais deixar a gente em paz
Por dois dias
Que as pessoas chamam de luto

Daí, veio o documento
Tudo
E se eu tivesse dinheiro
Você tava até hoje
No hospital
Lá nos aparelhos
De repente, dava certo…
Mas, não deu…
Acabou
Ou começou…
Veio gente,
E como veio gente!

http://veiogente.com.br/vida/

Escrito e dirigido por Ana Cristina da Silva